Considerações sobre “Outros Barulhos”

Em  “outros barulhos” , de Reynaldo Bessa, observa-se um eu-lírico, por vezes, menino. Marcado por velhos casarões, comércios de vila, ruas antigas, plaquetas de mercearia, alegrias quase oníricas (próprias da infância) e uma dura relação com o pai, “a incompetência vestida de branco”. Quando açoitado, não se exaspera. Em sua intransponível condição de menino, limita-se a inferências, rijas e silenciosas, em cenas que se desenrolam à medida  que o poeta se doa ao exercício de rememorar.

Bessa, faz as imagens saltarem aos olhos do leitor, como um bicho de poder letal: “Minha mãe apareceu no umbral da porta/ logo, meu pai, nu, nasceu de uma sombra e a puxou/ ele queria terminar de foder com ela e/ parece que comigo também”. A construção imagética, implacável, em algumas páginas lembra a de Jim Morrison em “The End”, sendo possível imaginar os versos de Morrison, narrando uma possível cena subsequente a que Bessa descreve neste poema:  “He walked on down the hall/ And he came to a door…/ and he looked inside/”Father?”/ “yes son”/”I want to kill you”.

Mas as imagens de Bessa, não se limitam a impacto, há também o poder de revelação: “quando eu tinha oito anos/ descobri o tempo/ ele estava numa plaqueta/ numa mercearia/ dizia: fiado só amanhã/. Nestes versos, notamos a tão almejada “sacada”, que é a força estética da poesia marginal.  Os poetas marginais escreviam versos simples, e investiam no poder de concisão e poeticidade exponencial da revelação. Neste trecho, é desvelado o algoritmo de retaliação do tempo. Nos puxando para a mesma urgente e intransferível realidade, os seguintes versos: “relampejava e eu não tinha medo/ como pode alguém com fome, ter medo de relâmpagos?”.

Em um dos poemas, um malabarismo fonético: “pó/ lida/ solidão /sólida/ só/leio/ tão/ fina/ lágrima/ sórdida/ não/ creio. Cada verso é composto por apenas uma palavra, que carrega em si, imenso peso semântico. Estes campos semânticos, são ligados de forma vertiginosa pela sonoridade, e as tônicas vêm como socos no estômago do leitor.

A força estética e temática, presente em “outros barulhos”,  se difere das tendências da poesia contemporânea, influenciadas pela kryptonita da filosofia pós-moderna, a auto-ajuda. A poesia de Bessa, não sustenta o didatismo, que subestima o leitor, tampouco a pieguice cafona, fruto de perspectivas insustentáveis. Não. Em “outros barulhos”, somos obrigados a encarar, junto ao poeta, todos os assombros do passado, de forma austera e digna. Por fim, ao término da leitura, uma certeza vem a mente, materializada nas palavras de Machado: “o menino é o pai do homem”.

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