Pra cima de muá, meu bom?

Todos os dias, mais ou menos às 19h, da sala da minha casa eu ouvia:” Eu vou ficar…ficar com certeza, maluco beleza!”. Era o canto de guerra: Raul havia sobrevivido a mais um dia de trincheira! Eu da minha janela gritava: ” o bar já fechou!” Ele respondia risonho “oh… meu bom! Pra cima de muá?!”

Fernando era um senhor de cinquenta e sete anos que gostava de viver intensamente e espalhar largos gestos de paz e amor pelo mundo. Um poeta-hippie quase de ofício. Ainda na juventude recebeu a alcunha de Raul, por ser muito fã e parecido fisicamente com o pai do rock brasileiro. Raul me conheceu ainda criança, quando meu pai me levava ao bar para eu cantar faroeste caboclo, ali entre amigos. Meu pai conta que Raul sempre me deu a maior moral, dizia:” esse menino vai ser artista!”

Eu cresci e continuamos frequentando o mesmo bar. Tomamos incontáveis porres juntos e,  minha satisfação por isso é indescritível mas nada discreta. Dos meus personagens prediletos, certamente fora o mais carismático. Nunca haverá tantos galicismos em chegadas ou partidas nos botecos de Franco da Rocha . Aos mais íntimos, curvava-se, beijava as mãos, rasgava um elogio. Ao entrar e ao sair.

Com a certeza de que nunca houve bêbado mais cortês, todos os clientes e funcionários guardavam muito respeito e estima por ele. Tamanho afeto,  era o único a ter aval para passar à parte de trás do balcão e fazer  sua própria bebida, na ausência ou na presença dos donos.

Certo dia, estava eu tomando uma cerveja gelada no bar de sempre (Bar do Mirão ou Miro Pistola), seguindo uma tradição que tínhamos e que consiste em começar beber horas antes da festa para chegar “quente” ao local. O famosíssimo “esquenta”. Quando Raul chegou emanando boas energias com seus célebres bordões, me virei para a porta do bar e o percebi mais bêbado do que de costume. Não era desculpa, fez  as honrarias de praxe e sentou-se ao meu lado. Conversamos, tomamos uma maria mole ou coisa do tipo e, já saindo, comentei que iria a uma festa, ali pertinho. Ele então me perguntou se poderia ir. Não omiti e nem menti o endereço. Expliquei que seria uma festa de uma galera mais jovem, com um tipo de música que talvez não lhe agradasse, mas seria um prazer recebê-lo.

O sound system já estava rolando havia umas três horas quando Raul apareceu. Alguém disse –tem um tiozinho na porta, muito louco, acho que você conhece, ele fica lá no bar do Mirão. Eu ri copiosamente. Não demorou muito pra ele virar a atração principal da festa, a ponto de algumas pessoas não se incomodarem com meu descuido pisando em seus pés, só porque eu era amigo do “Seu RAUL”. Aquele dia, caiu por terra a minha romântica ideia de morrer aos 27 anos, como um “bom rockeiro”. Esqueci Janis e Hendrix. A partir dali, eu queria ser tão bom rockeiro quanto Raul e gozar a plenitude da vida aos 57 anos.

Com ele aprendi fazer sátira dos próprios medos a fim de expurgar as paranoias. Aprendi sistemas complexos, algoritmos capazes de parar o tempo. Aprendi descriptografar mensagens das mais insípidas sensações. Muito didático: peça ao dono do bar um “cabo lavo” ou um “cai na rampa”, chame alguns amigos e brinde antes de beber o primeiro gole.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s