Acessibilidade a arte: para além da entrada franca.

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Capturei esta moça contemplando um quadro na exposição “Mugrabi”, com obras do Basquiat no CCBB. Não houve consentimento, mas ela não se irritou, pois tive o decoro criminoso de não deixá-la perceber a ação.

O que me levou a tirar a foto, foi a curiosidade de saber o que se passava em sua cabeça diante da obra, o que suas costas, infelizmente, não pôde me revelar. É fascinante o processo de depreensão de sentido. As inferências. Você já refletiu sobre o porquê do pintor de feira, que faz retratos tão fidedignos, reproduz paisagens com avançadas técnicas de realismo, consegue vender seus quadros por apenas quarenta, cinquenta reais, enquanto artistas que produzem coisas disformes, aparentemente sem nenhum ordenamento estético, vendem seus trabalhos por milhões?

Com exceção dos pseudo-artistas, legitimados por galerias e críticos que conceituam, literalmente, qualquer merda, estas obras são mais valorizadas porque comunicam. Não se resumem a reprodução, a mímese. E não é só isso. Comunicam ideias do lugar comum, mas por uma perspectiva inédita e uma linguagem subversiva, que permitem a elevação de consciência, refinamento do olhar estético, estímulo do senso crítico e etc.

No momento do clique, havia um guarda prostrado ao meu lado direito, este, mantinha uns olhos silenciosos, inexpressivos, alheios ao ambiente. Sua indiferença, me chamou muito mais a atenção, logo comecei a tentar decifrar o que se passava em sua cabeça. Algumas hipóteses surgiram:- bom, ele está aqui há vários dias, decerto cansou de admirar e brincar de imprimir sentido as cores, as formas. Uma outra -pode ser algo pessoal, ele pode não estar em um bom dia ou então, não gosta de Basquiat. Simples assim. Por último, me veio a suposição mais interessante- ele possivelmente está imaginando o que se passa na minha cabeça e na cabeça daquela moça, ambos encarando um montante de tinta jogada a esmo em um quadro pendurado na parede. O que para ele, em absoluto, não dizia nada.

Esta possibilidade me trouxe a derradeira reflexão sobre o episódio: Basquiat figurou entre os artistas mais famosos e expressivos de sua época, sendo negro em uma cena majoritariamente branca (arte de galerias e museus na Nova York dos anos oitenta), questionando por que negros só obtinham certo sucesso nos esportes, mas não adentravam o mundo executivo e político, questionando a representação do negro no cinema, na televisão e nas artes em geral. Se Basquiat, filho de imigrantes, negro, falava e se dedicava a questões que possivelmente são pertinentes para aquele segurança, também negro…por que será que Basquiat não se comunicava, de acordo com minha terceira hipótese, com aquele e vários outros funcionários de tantos outros espaços culturais?

Por que em geral, a arte sobre o povo, não é acessível ao povo e, acessibilidade no caso, vai muito além da entrada franca. Há uma grave falha comunicativa, tirando em parte o mote dos grandes artistas. Mas e a culpa? Quem é o responsável por esta falha? O próprio artista, com sua construção e estilística? A escola que negligencia o tão citado multi-letramento? Quem?!

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