Rincon Sapiência e a retomada do discurso negro (discurso, logo existo)

“quente que nem a chapinha no crespo, não/ crespos estão se armando/faço questão de botar no meu texto/ que pretas e pretos estão se amando…”

Tudo que envolve identificação e expressão de matriz africana, sofreu (e sofre) imensa represália. A proporção e a maleficência desta campanha de abnegação cultural são gigantescas! E podemos facilmente encontrar provas disso no dia a dia: cabelo crespo, por exemplo, virou sinônimo de cabelo ruim. Ainda me lembro da época de escola em que as crianças com o cabelo crespo, eram indubitavelmente enxovalhadas. Quem era filho de preto com branco, como eu, se gabava por ter um cabelo “menos pior”, um nariz não tão esparramado, uma pele não tão escura.

“Aquele passado, não esqueci”

Esta fatídica realidade tem base num preconceito racial histórico, que é fomentado pela indústria da moda, produtora dos seus conceitos, e transformados em discurso pelos meios de comunicação em massa. Segundo Maingueneau, o discurso é uma ação social, é exercício de um sobre o outro. Estes, estão ligados à instituições que fiam sua legitimidade. Portanto, se você não está respaldado por uma delas, não possui discurso legítimo, o que te sujeita a nenhuma, ou mísera e deturpada representação.

“Como MC eu apareci/ pra me aparecer/ eu ofereci/ umas rima quente como Hennessy”

Com a potencialização da música independente, canções que guardam discursos tão contundentes e estéticas refinadas como “Ponta de lança”, podem enfim, chegar ao grande público. A internet abre espaço para canais comunicativos mais democráticos. Para a mensagem chegar ao co-enunciador, não precisa trocar as vestes ao cruzar a cancela de grandes gravadoras e emissoras de TV. Vale a ressalva: antes da internet e de Rincon, o povo preto já falava e refletia sobre si, mas só podia ser difundido o que divertisse ou por algum motivo torpe, interessasse à instituições fiadoras.

“pra ficar mais claro/ eu escureci”

Quando ouvi “Ponta de Lança” pela primeira vez, fiquei extasiado. Tive a certeza de que era a mensagem mais lúcida e clarividente da negritude brasileira na última década. Raiz africana, liberdade, identidade cultural, autoestima e autonomia. Todas as questões são decorridas e concatenadas por Rincon Sapiência, com literatura sagaz e visionária.

“Meu verso é livre, ninguém me cancela”

Em uma entrevista, o rapper diz ter trabalhado com Rick Bonadio, mas acabou saindo do projeto ao deparar-se com sanções comerciais. Manteve suas pretensões artísticas e sociais em detrimento do respaldo de um renomado produtor. E foi além. Ponta de lança faz parte da edição 2018 de Malhação. Se me perguntassem qual a maior façanha de Rincon Sapiência, eu diria: pular a cancela.

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