Mesa de bar (paixão)

—Tá decidido, este ano eu vou me apaixonar. Um fulano riu copiosamente.— Paixão  em essência, é descuido. É uma falha de anticorpos. Não existe isso de decidir se apaixonar. É como desordem planejada: não confunde de maneira genuína.— blábláblá… Eu por exemplo, me apaixono sempre que posso: no trabalho, no parque, no transporte público…vejo uma moça bonita no ônibus e antes que ela chegue ao bairro de destino, já escolhi o nome dos nossos filhos, a escola na qual estudarão, a cor da casa, a cor do quarto das crianças. Na minha fantasia, ela discorda, protesta, diz que preciso passar mais tempo com a família e que no domingo iremos almoçar na casa da minha sogra. Faço uma piada que enfatize o sobrepeso da velha e ela sorri culpada. A fantasia só termina quando ela desce. Aí eu me restituo, rio da minha paranoia, escarneço da minha carência e em pensamento, peço silêncio aos outros passageiros. Após alguns instantes, como que instintivamente, alguém chamou o garçom. A conversa teria encerrado, mas um pequeno fez questão de sublinhar:  —Já eu nunca me apaixonei! Sou muito centrado em mim mesmo.­­—Vocês acreditam em alma gêmea?—Balela. A maior mentira do mundo é essa coisa de alma gêmea, de metade da laranja…olhem o Fábio Junior que canta essas merdas…no casamento dele, quando o padre diz: “até que a morte os separe…”, a morte pensa: se Deus quiser e eu conseguir antes do noivo.—Mas que cético engraçadinho. A moça da ponta da mesa, ouvia atentamente a conversa, calada. Pequenas estafas não verbalizadas amontoavam-se em sua face até se dissiparem no ar.—Bom, eu talvez não acredite em alma gêmea, mas existe um q de destino no amor, com certeza. Uma amiga, em outra ocasião, me confessou ter se apaixonado por uma menina que, segundo ela, era a pessoa mais incrível do mundo. Elas tinham tudo em comum. As coincidências eram tão absurdas! Ambas cursavam jornalismo quando se conheceram e até aí, tudo bem, se conheceram na faculdade. Mas foram conversando e descobriram que a segunda opção de curso de ambas, era física. E a terceira, cinema. Amavam café, Dom Casmurro, música celta e eram fanáticas pelo Neymar. Como se explica isso?—A vida têm dessas coisas. Coincidências…ainda que incríveis, são apenas coincidências. O breve silêncio indicava a necessidade de mudança de pauta. Mas quando irromperam a falar de futebol num canto, do outro começaram mais um relato: — Tive poucas paixões, no entanto, muito intensas e verdadeiras. Nenhuma correspondida. Mas tive sorte, não imaginava que amor era coisa que se devesse ou pudesse cobrar. Nem mesmo que tinha algo a mais para querer além do próprio sentimento. Para mim, sentimento era coisa solta e bem resolvida, pois ao estar na presença da pessoa o corpo sorria-se todo e pronto, clandestino e livre, paradoxal e autoexplicativo.—Você fala tão bonito. É um poeta. A mulher mais bela da mesa sorriu e concordou com a cabeça. —Como alguém como você vive só? —Essa eu sei, eu sei, eu sei: porque poeta não come ninguém! Poeta quando faz juras de amor eterno, assina contrato vitalício com a punheta!—Todos riram torrencialmente. —Eu achei que todo homem, poeta ou não, já nascesse com esse contrato. Tornaram a rir. O poeta também riu. Riu seu riso de licença poética. — Meu último namorado foi muito bom para mim. Não sou dessas pessoas frustradas que terminam um relacionamento e saem falando mal, difamando os outros…além disso, eu nem poderia, né? Foi ele quem me apresentou How I met your mother. Um mais distraído, concluiu: há pessoas que entram em nossas vidas apenas para nos apresentar How I met your mother.

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