Grão de areia (um texto sobre a arte)

Watercolour splat

Em um destes finais de tarde, com frio e chuva, em que a gente comprime o corpo sonolento para chegar ao morno do centro da carne e depois adia até o mais curto e urgente movimento, fui surpreendido por uma daquelas reuniões listadas pelo ócio alheio. Recebi alguns amigos que, casuais, tiraram logo os sapatos e me exigiram café. Bom anfitrião que sou, adverti: quer café? Faz você.

Conversávamos sobre competências e habilidades que todos adquirimos ao longo da vida, quando notei algo de muito sério dentro de um auto-deboche. Em algum momento, eu disse: só tenho talento para coisas inúteis. Todos riram e concordaram. Afinal, pra que é que se canta, toca, fotografa ou faz verso? A discussão é tão antiga quanto a própria arte. Da boca de Chico Buarque, em uma entrevista, ouvi: “a arte é inútil”. Não sei se ele disse como Leminski dizia, ou seja, como estratégia de discurso e um certo charme. Tampouco soube se concordava ou não com aquilo. E até aquela tarde, dotado de uma capciosa covardia,  eu havia ignorado a questão.

Quando todos foram embora, fui acometido por uma torrente de por quês e não saberes; não seria melhor prestar vestibular para uma área de prestígio social, fazer mais alguns cursos de excel, estudar para concursos? Na contramão dos comprimidos, não consegui resumir em mim, nenhuma solução.

Passados exatos três dias, assisti ao documentário “Tempo rei”, sobre o Gilberto Gil e sua obra. Quando volta à sua terra natal, acompanhado da repórter, Gil diz: “precisamos entender que não valemos mais do que um grão de areia”. À partir disso,  compreendi a função da arte na minha vida, ainda que dentro de uma ostensiva subjetividade.

Talvez, como indivíduo social, em qualquer posição, eu tenha falhado: atrapalhado o trânsito trocando de faixa em hora inoportuna, arruinado a capacidade respiratória dos esportistas do parque com a fumaça do meu cigarro, atrapalhado o andamento da peça com um aplauso fora do time, o plano dos meus pais, querendo ser mais eu e menos eles, o plano do meu professor, não entendendo a matéria, ter feito aquele vendedor de sapatos subir e descer três lances de escada com belos pares e não levar nenhum. Sendo assim, eu, talvez, ainda não valesse um grão de areia.

Em minha condição mais primitiva, animalesca , já um pouco morta, já um tanto inválida, por não ser mais parte exclusivamente orgânica de nenhum bioma, eu ainda não valesse um grão de areia.

Talvez como humano, muitas vezes destituído ou esquecido da minha humanidade, sendo assim, perverso e vil, eu não valesse, tão somente, um grão de areia. Mas ao encontrar o ritmo adequado de um verso arredio, uma metáfora de implodir dicionário, uma visão clara sobre os estorvos do mundo, alcançasse a máxima universal na balança de todas as coisas: valer enfim um grão de areia.

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