A minha ironia em stand by

nordesteA escrita, para mim, sempre foi uma atividade essencialmente cerebral. Até mesmo na prática de gêneros textuais como o poema, quase sempre entregues às mediações do afeto, quase sempre envoltos por grandes sentimentos e dicotomias humanas. Em meus escritos, é difícil encontrar temáticas, como; amor, ódio, felicidade, angústia, alegria, tristeza, solidão. Quando me perguntam: “O que é escrita para você”? Eu sempre respondo: escrita é o árduo trabalho com a estética da palavra e o respeito a completude das ideias.

Odeio texto com ar confessional, chorumela, parecendo diário de pré adolescente (salvo as exceções de uns Rimbauds), de modo que tive muita dificuldade em organizar as ideias e redigir este texto no qual vos falo.

Não consigo exprimir aqui a minha imensa decepção com a situação política do país, mas também não é o caso. Se fosse, eu me muniria de mais racionalidade, documentos, teorias e análises objetivas dos fatos. Contudo, a razão maior do meu descontentamento, não é a política em sua superfície, mas sim a revelação de tantas faces imundas, descarnadas sob a ácida chuva da ignorância.

Estamos vivendo um momento histórico; de regresso, distopia e alucinação. No domingo, 7, eu voltei das urnas sem muita esperança, mas ainda com alguma rebeldia, cinismo e bom humor, que me são característicos.

Em uma foto no instagram, em que eu aparecia bebendo, a legenda era: já votei consciente, agora vamos aguardar a desgraça inconsciente. Dito e feito. Quando saiu o resultado da apuração, pudemos ver que o nordeste havia sido o último reduto de resistência contra os ideais pérfidos representados por (b)olsonaro. Por conseguinte, houve uma enxurrada de repreensões preconceituosas, lastimáveis, no facebook. Inúmeras pessoas próximas, do alto de suas frágeis intelectualidades, do baixo de suas burras soberbas, destilaram seu ódio contra o povo nordestino.

Não consegui ficar revoltado. Não consegui ficar puto. Não havia meios para qualificar,  medir ou pesar a situação. Tampouco sou capaz de fazer prognóstico para o fim das eleições, sendo assim,  espero apenas que não sejam as últimas.

Eu queria poder publicar um manifesto bem embasado, organizar uma passeata no centro, não gritar palavras de ordem, mas sim de liberdade. Hoje eu não consigo. Dias atrás, perguntei a escritora  Paloma Franca: por que você continua morando em São Paulo se não gosta da cidade? Por que tem tanta mágoa do povo paulistano e paulista? Ela me deu uma resposta coerente, embora não tenha sido suficiente para eu realmente entendê-la. Na ocasião, eu disse que por ter nascido aqui em SP, não poderia ter a inocência ou a arrogância de achar que entenderia o que é ser um migrante nordestino ou nortista em São Paulo, como é o caso dela. Portanto, só me restava o exercício da empatia. As eleições foram uma resposta retroativa. Resposta clara e lamentável.  Encerro meu textão de facebook com ar confessional, deixando meu repúdio as ideologias infectas, e o meu convite a todos que quiserem se mobilizar para criar uma sociedade alternativa no meio do mato. Isso tem um pouco de covardia? Claro que sim. Mas se pararmos pra pensar, tem muita coragem também.

 

Créditos da ilustração: Carlos Meira

Link: http://carlosmeirailustrador.blogspot.com/2013/03/banco-do-nordeste.html

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